O Programa Casos de Família, exibido no horário vespertino pelo Sistema Brasileiro de Televisão - SBT, das dezessete às dezoito horas, é um talkshow, apresentado por Christina Rocha. O Programa representa a vida de pessoas comuns através de temas do cotidiano que ressaltam as emoções dos participantes presentes no palco. Além dos convidados, a plateia também participa do programa com opiniões e perguntas sobre as histórias relatadas. A intenção, segundo divulgação do site do Programa, é orientar e solucionar os casos apresentados contando com a participação de um psicólogo.
O Programa que iniciou em 2004, com a apresentação de Regina Volpato, ficou no ar sob seu comando até o ano de 2009, quando a mesma foi substituída por Cristina Rocha, e permanece até o momento. Com esta mudança o programa dobrou a audiência do SBT no horário, atingindo nove pontos de média e onze de pico.
Os criadores são Rafael Belo e Juan Alvarez, pois o formato do Programa advém da aqusição feita pelo SBT de uma emissora do Peru. No Brasil, o Casos de Família tem a direção de Rafael Belo e Melissa Ribeiro, os produtores são Fabiano Pescarelli, Rose Favero, Thais Camargo, Felipe Neves, João Scortecci, Priscila Dempsey, Rodrigo Schmider, Sérgio Christophe e José Salerno.
Segundo os produtores do Programa, Casos de Família é destinado à família, pelo horário em que é veiculado se pode dizer que é estratégico para as donas de casa, pois no horário de sua exibição, as tarefas de casa estão terminando de ser feitas, e as mesmas tem este horário livre para assistir TV. As temáticas apresentadas se destinam ao público de classe baixa ou média. Inicialmente a classificação era livre, mas o Ministério Público o reclassificou a impróprio para menores de 10 anos, por expor as pessoas a situações degradantes e constrangedoras.
O programa apresenta conflitos que acontecem entre membros da mesma família, vizinhos e até no ambiente de trabalho. Os problemas do cotidiano de qualquer família são abordados e os anônimos revelam suas histórias, abrindo suas vidas, que são analisadas pelos psicólogos Anahy D'amico e Ildo Rosa da Fonseca.
Enquanto talkshow, Casos de Família, tem formato de entrevistas com auditório cuja forma é estabelecida no diálogo e tratando sobre o “comportamento”, busca compreender a realidade através da conversa com os participantes. A principal característica do programa é discutir o mundo real, daí seu caráter temático, pautando-se nos temas da realidade.
O programa inicia com a apresentadora falando do tema da edição. Após a vinheta, a âncora do programa chama ao cenário o primeiro convidado, que é entrevistado. Em seguida, chama o segundo convidado e deste modo segue até todas as duplas se apresentarem. Durante, aproximadamente quarenta minutos o programa segue, com quatro intervalos comerciais e a plateia, se manifesta opinando sobre os casos apresentados. No último bloco, os especialistas discutem o assunto de acordo com o seu conhecimento científico e faz as intervenções.
A participação dos convidados ocorre, geralmente, em dupla, num total de quatro duplas em cada edição. Ao apresentar os casos, é chamada uma das pessoas que expõe o que o desagrada em relação ao parceiro, em seguida, a outra pessoa entra e procura se defender expondo suas situações.
É interessante observar que as propagandas comerciais e o merchandisgn que acontecem durante a programação traz conteúdos associados à família, lar, medicamento, saúde, cuidados com os filhos e com o corpo. Uma estratégia que pretende conduzir os telespectadores ao consumo de seus produtos. Entre eles: Ultrafarma, Imbra (serviço odontológico); Forte Viron (sexualidade); Mix Lar (produtos para o lar); Del-lend (tratamento da pediculose); Salvelox (spray anti-séptico), etc.
A apresentadora faz questão de destacar a todo o momento que é uma amiga do povo, e que o Programa se preocupa com a qualidade de vida dos participantes e todos que o faze estão ali para ouvir e ajudar a solucionar os problemas vividos por estas pessoas. Os temas apresentados mostram um mundo com fragilidades decorrentes dos dias atuais, em que o ritmo de vida urbano, aliado às novas tecnologias e às novas formas de viver, acarreta significativas transformações sociais, muitas vezes negativas.
Casos de Família apresenta personagens figurativizados, sendo eles: a apresentadora, especialista, o convidado e a plateia. Os papéis representados contribuem para dar ao programa um caráter de tribunal. Neste, os envolvidos representam o réu, o promotor, o juiz e o júri. O convidado assumiria, então, a posição de réu, enquanto o parceiro que acusa representaria o promotor, e o juiz e o júri, a apresentadora e especialista e a platéia, consecutivamente. A disposição do espaço da cena ajuda a entender esta comparação, pois colocados em posição frontal em relação aos convidados, a apresentadora, o especialista e a plateia mantém distanciamento em relação aos “réus”.
A produção televisiva tem procurado tornar confiável o sistema de comunicação para isso adentra às casas dos telespectadores tentando aproximar-se do público ao criar laços com a sua realidade, logo, constituir uma relação íntima e cotidiana com cada telespectador é uma maneira de garantir a audiência. Nesse contexto, são usadas estratégias de aproximar telespectador e produção televisiva. Os Programas tentam trazer as experiências vivenciadas pelo público para dentro da máquina, assim, o mundo real e sensível se torna o protagonista da TV.
O Casos de Família é o que poderíamos chamar de reality show, pois transporta o real – ou aquilo que está mais próximo do real - para a programação, e como se fosse uma janela se acomoda na tela captando a realidade e exibindo o mundo na mídia. Ali são abordadas situações cotidianas que viram espetáculo e expõe o espaço da vida privada de anônimos a curiosos, é como se de fato o público assistisse a si mesmo, dando à TV a legalidade do sistema de comunicação.
Programas como este são mais baratos porque se substitui a participação de celebridades por pessoas anônimas, estes recebem apenas um cachê simbólico diferente do que recebem as estrelas de televisão. Além disso, os formatos de cenários, figurinos e profissionais especializados são dispensados, se tornando bem mais econômico. Os temas que direcionam a produção do Casos de Família estão associado a assuntos corriqueiros e íntimos, como: Você não cuida do meu filho como eu; Sua família me suga; O namorado da minha filha acha que manda na minha casa; Minha sogra é uma desocupada; Minha nora parece uma rainha; Quero saber quem é o meu pai; O seu casamento acabou; Somos irmãs, mas não te suporto; Sou infeliz por sua culpa; Não aceito sua homossexualidade; Meu marido não aceita os meus filhos; Você já tem filhos demais; Acorda! O marido é meu!; Esse trabalho não é para você; Assim nós vamos à falência; Traição tem perdão?.
A exposição dos convidados a situações de constrangimento é uma das situações que chama a atenção, em alguns programas se percebe as ofensas, algumas vezes disfarçadas outras escancaradas, ao modo de falar, de se vestir, de se posicionar, ou quando não a apresentadora expulsa o convidado como já ocorreu algumas vezes. Em um deles uma das convidadas não deixou sua irmã falar e ainda chamou a plateia de mal-educada. Christina Rocha defendeu a plateia e ofendeu a participante, chamando-a de ridícula e mal educada. Com a ex-apresentadora, Regina Volpato, se procurava dar ao programa um ar de mais seriedade, com a nova apresentação se vê um formato onde há apelo exacerbado às provocações e escândalos, apesar disso a audiência cresceu.
Segundo Fígaro “Pensar a comunicação a partir da recepção possibilita-nos, no campo comunicação/educação, tentar desconstruir tal discurso, buscando compreender o processo de comunicação como interação social”, deste modo ao analisarmos o crescimento da audiência do Programa quando este se tornou mais apelativo e sensacionalista, perpassa pela idéia de que os apresentadores estão prestando um serviço a população e dando voz, no entanto, o que se vê é um grande interesse pela audiência.
Assim, a programação televisiva tenta mostrar ao telespectador que se ele deseja ver sua vida representada na TV basta ligar o aparelho televisor e assistir ao programa, ao se identificar com o tema do dia estará ali representado o assunto que merece relevância e se o telespectador não se identificar poderá construir a sua auto-imagem contrastando com aquela exibida pela TV e, ao mesmo tempo, lhe será concedido o poder de julgamento, de satisfação.
No espetáculo construído no Programa Casos de Família, assim como outros talkshows, se percebe a construção de uma sociedade midiática que regula os valores e se vê refletida na TV. O telespectador não é passivo neste processo de recepção, mas consumidor da mercadoria que vende a programação. Pode ser analisado ainda o tipo de família que o Programa mostra que a sociedade construiu, seria de fato a família desestruturada e desamparada?
Particularmente, acredito que o Programa no formato que é exibido atualmente merece nota zero, e não o recomendaria para outras pessoas pois há uma grande apelação ao sensacionalismo e ao espetáculo de situações constrangedoras. Inclusive o horário e a classificação poderiam ser alterados, penso em crianças de dez anos assistindo ao programa, e na vejo o que elas possam aprender de positivo em relação ao que é veiculado. O antigo formato, com Regina Volpato, ainda mantinha certa seriedade, pois a exposição das situações não eram tão vulgarizadas como são hoje, embora alguns elementos ainda fossem valorizados. Assim, acredito que mudar a apresentadora do programa não adiantaria muito, pois continuaria sendo veiculado um conteúdo com os mesmo objetivos, apenas com caráter mais ameno que o atual.
Por fim, acredito que nesse contexto, onde se vê uma população carente de uma programação cultural maior e que tem a educação como um de seus problemas mais urgentes, é preciso um repensar sobre a programação televisiva, é necessário que se discuta as políticas de comunicação; e a escola pode ajudar a recuperar o papel de mediadora social, levando estas discussões para a sala de aula.
REFERÊNCIAS:
FIGARO, Roseli. Estudos de recepção para a crítica da comunicação. Revista Comunicação & Educação. São Paulo: ECA-USP/Segmento, n. 17, jan./abr. de 2000, p. 37 a 42
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